O EMPRÉSTIMO

Atualizado: Abr 26

Certa vez, um familiar distante pediu um empréstimo de R$ 50,00 para pudesse pagar dívidas. Sendo alguém que eu sabia que sempre esteve em dificuldades financeiras, depois de alguns dias resolvi responder a solicitação com uma carta. E foi assim que comecei:

Arquivo pessoal do autor.

[...] Boa noite querido. Estive um pouco ocupado e nesse sentido demorei para responder. Eu não poderia dar qualquer tipo de resposta para você, tendo em face o pedido de empréstimo seu de R$ 50,00, porque você estaria passando por dificuldades. Porém, como você é um membro da família, merecia uma resposta melhor do que um simples sim (vou depositar o dinheiro para você), ou um não (não tenho esse dinheiro neste momento).

Vamos lá.

Saí da cidade de Uberlândia (Minas Gerais) quando eu tinha mais ou menos 14 anos.

Saí de casa não porque me mandaram sair, ou porque estava fugindo da polícia, ou tinha brigado com a família e coisas do gênero. Saí porque eu não via mais perspectiva em ficar lá. Eu tinha como círculo de amizade grupos envolvidos com consumo de drogas e até cometimento de pequenos delitos. Isto tudo me fez pensar e tomar uma atitude: cheguei à conclusão de que não teria futuro naquela cidade.

A situação estava muito problemática e eu acabaria terminando como muitos outros colegas meus daquela época que, atualmente ou estão mortos, ou presos, ou na miséria.

Sempre tivemos poucos recursos financeiros em casa. Não comemorávamos aniversários, brinquedos eram raros, até mesmo um calçado se limitava a um par de chinelos e um tênis sempre gasto. Nossa família passou por muitas dificuldades, inclusive incorrendo em um divórcio entre nossos pais.

Nisto, quando saí de casa, fui ao encontro do meu pai que trabalhava em canteiros de obras pelo estado de Minas Gerais. Fui ajuda-lo na construção civil por uns dois ou três anos. Logo ele desistiu de trabalhar em obras e voltou para Uberaba, já tinha se divorciado da minha mãe.

Eu, no entanto, fiquei. Não queria voltar para a minha terra natal. Eu havia prometido para mim mesmo que jamais voltaria: "quem anda para os lados e para trás é caranguejo...” pensei com meus botões.

Fiquei desempregado, passei fome, teve dias que não tinha o que comer. Minha única saída era roubar verduras nos quintais do bairro onde morava em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte.

Em pouco tempo, ainda mantendo meus estudos em escola pública, lutando para não parar de estudar, consegui um trabalho de varrer rua em uma construtora que asfaltava estradas. Teve dia em que eu tinha que me esconder dos colegas de escola pois eu tinha vergonha de ser um varredor de rua... Hoje vejo isto como uma fase importante e que não deveria ser motivo de vergonha.

Em seguida consegui emprego como faxineiro em um banco em Betim graças a um funcionário que morava na mesma pensão que eu. Ele também vendia jogo do bicho para fazer um bico. Daí, como eu não tinha emprego e o Sr. A. Marinho vendo meu esforço, me colocou para fazer coletas de jogo de bicho nos pontos da cidade e levar o dinheiro para a central. Eu tinha que ser rápido pois tinha horário certo para entregar as apostas. Minha condução era uma bicicleta velha que o Sr. Marinho me emprestou. Eu era muito rápido. Era o primeiro a entregar todas as apostas. Comecei a vender jogo para o Sr. Marinho, como seu auxiliar. Eu era muito bom nisso. Um dia ele conseguiu para mim um emprego no Banco em que ele trabalhava. Rapidamente fui promovido a office boy, depois promovido a escriturário e, bem... essa é outra história.

Continuei... me esforcei... Fiz faculdade em Belo Horizonte. Subi de cargo no banco e depois, novamente cheguei à conclusão de que Belo Horizonte não era meu lugar. Eu queria ir para uma cidade grande fora de Minas Gerais. Então, vim para São Paulo. Trabalhei, saí do banco em que trabalhava, juntei o dinheiro e tentei montar um negócio próprio.

Infelizmente eu não tinha nenhum preparo para ser empreendedor. Quebrei, fiquei devendo muito dinheiro. Voltei a trabalhar como free lancer em academias de dança. Sempre gostei de dançar e participar de festivais de dança de rua em Betim. Hoje, sou profissional da Dança.

Neste período, já capital de São Paulo, fiz outra faculdade (Faculdade de Dança). Fiz duas pós-graduações, fiz mestrado e doutorado em Arte.

Neste tempo todo, nunca pedi um centavo, uma caneta ou caderno para meu pai ou para minha mãe. Nunca pedi um real para minha família, mesmo quando eu estava passando fome em Betim. Isso me testou, me fez pensar que na vida precisamos queimar pontes. Naquela época, quando eu tinha 14 anos, eu queimei a minha primeira ponte... Vou explicar o que é queimar ponte.

"Certa vez um general chinês tinha ido para a guerra e levado consigo toda a sua tropa. No caminho para chegar ao lugar onde aconteceria o embate, todo o exército precisava atravessar uma ponte. Enquanto cruzavam esta ponte, alguns soldados gritavam e demonstravam pânico com a possibilidade de perder a batalha, mas seguiam. Outros comentavam que caso a situação saísse de controle, eles poderiam atravessar de volta e fugir. Ao perceber os comportamentos dos soldados, o general não pensou duas vezes; quando toda a tropa terminou de atravessá-la, queimou a ponte. Deste modo ninguém poderia recuar. Todos ficaram chocados com aquela atitude e o general deixou clara sua postura: era vencer ou morrer. Mas eles precisavam estar lá, lutando, com toda a sua alma e vontade, sabendo que precisavam dar tudo de si, ou não haveria outra opção." (ROCHA, 2016)

O que você aprende com essa história? Que lições você pode começar agora a pôr em prática? Qual é a ponte que você precisa queimar? O que você precisa deixar de lado definitivamente para avançar para o próximo nível? Como você entra para um jogo? Para competir ou ganhar? Está disposto a pagar o preço que for necessário? Você é responsável pelo seu destino. Queimar pontes te dá poder, te mostra o quanto você é responsável por seu destino, por sua vitória, satisfação, por seu sucesso ou fracasso.

Ainda que, para isso, uma dor acompanhe a sua transformação; você precisa entender que é necessário e que faz parte da sua jornada, para que você possa atingir o próximo patamar, o próximo nível, o lugar dos campeões!


Afinal, o que você veio fazer neste mundo? Acredite em você. Você é capaz! Queimar pontes é uma escolha. Não as queimar também é uma escolha. Por isto, meu querido não vou te emprestar R$ 50,00 reais. Acho que você é capaz de conseguir muito mais que esse dinheiro. O dinheiro acaba, mas o poder de gerar valor fica. Pense nisto. Grande abraço!

Seu tio, Ítalo Rodrigues Faria.

REFERÊNCIAS CITADAS

ROCHA, Érico. Sacadas de empreendedor. São Paulo: Buzz Editora, 2016.

34 visualizações

Inicio           Termos de Uso e Serviço           Política de Garantias          Política de Privacidade           Sobre Nós          Blog          Contato 

Artes Coreográficas.Com - Copyright © 2020 . All Rights Reserved.

Rua Conselheiro Furtado, Bairro Liberdade - São Paulo (SP)

Cep 01511-000 - Tel: +5511 99139-2621

Redes Sociais

  • YouTube - Black Circle
  • LinkedIn - Black Circle
  • image
  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • Instagram - Black Circle